Finalmente, acabei a tradução das vinte canções deste primeiro ciclo de Schubert. O livro de Müller tem mais três ou quatro poemas que Schubert decidiu não incluir na sua obra. Eu ainda tenho um mês de Primavera pela frente e como decidi dedicar-me a isto até ao final da estação, vou talvez procurar esses poemas e traduzi-los aqui. Ou talvez não, que já estou a ficar saturado de moinhos e moleiras e moleiros e rios e flores e verde. Enfim, logo se vê. Seja como for, até ao fim da Primavera, vou pelo menos procurar imagens para ilustrar isto.
1 – ANDAR
Andar é o gosto do moleiro!
Um moleiro, para prestar,
tem que ter o prazer de andar,
andar!
Isso aprende-se com a água!
que dia e noite não descansa,
nem pára pensando na andança,
a água!
Também se vê isso nas noras!
que não gostam de estar paradas
e animam as horas cansadas,
as noras!
As próprias pedras pesadas!
fazem mó e dançam com o Rio,
devagar mas cheias de brio,
as pedras!
Ó andar, andar, ó meu prazer!
O senhor e a senhora deixam,
deixam-me em paz, nunca se queixam
do meu andar e andar e andar!...
2 . PARA ONDE?
Ouvia murmurar um ribeiro
por entre rochedos nascido,
um ribeiro em vales murmura
brilhante em frescura vestido.
Não sei como é que isto acontece,
nem quem me diz para seguir;
com o cajado vou descendo
seguindo o ribeiro a luzir.
Seguindo, cada vez mais longe,
e sempre à beira do ribeiro,
e sempre fresco murmurando,
e sempre mais luz no ribeiro.
Este é, então, o meu caminho?
Ó meu ribeirinho, responde!
Com teu murmúrio enfeitiçaste,
diz-me, ribeirinho, para onde?
Que dizer sobre estes murmúrios?
Só murmúrios não podem ser:
são ninfas do fundo do Rio
cantando em ribeiro a correr.
Deixa cantar e murmurar
e segue, alegre, companheiro!
segue viandando, que há noras
a girar em cada ribeiro.
3 – ALTO!
Vi um moinho brilhando
por esses álamos fora
e murmurando e cantando
cortava a água uma nora.
És bem-vindo! tão bem-vindo!
doce canto de moinho!
E como a casa é amável
e as janelas como linho!
E como o sol vem brilhando
do céu azul e dourado!
Diz, ó ribeiro querido:
estava predestinado?
4 – AGRADECIMENTO AO RIO
Estava predestinado,
o teu murmúrio amado?
o teu som, esse teu canto?
Estava predestinado?
Tu chamaste-me, ribeiro:
até à filha do moleiro!
Não foi? Eu entendi bem?
Até à filha do moleiro!
Ela tinha-te enviado?
ou já me tens perturbado?
Gostaria de saber
se ela te tinha enviado.
Seja como for, agora
só sigo por aqui fora.
Encontrei o que buscava,
seja como for, é agora.
O que tenho agora chega:
um moinho que me emprega
as mãos e até o coração.
E como chega e emprega!
5 – DEPOIS DO TABALHO
Tivesse eu mil braços possantes
para empurrar noras gigantes,
pudesse eu por bosques soprar
e quaisquer pedras arrastar,
para que ela, a bela moleira,
visse a minha alma verdadeira!
Ah! como é tão fraco o meu braço!
o que levanto, o que suporto,
o que desfaço e o que corto,
qualquer puto me leva o passo!
Grande roda, após o trabalho,
na calma do primeiro orvalho;
o patrão está satisfeito
com o trabalho que foi feito;
despede-se a bela moleira,
diz boa noite à roda inteira.
6 – CURIOSO
Às flores não pergunto,
nem pergunto às estrelas;
as coisas que me intrigam,
não poderão dizê-las.
Eu não sou jardineiro,
chegar ao céu não pude:
pergunto ao meu ribeiro
se o coração me ilude.
Ribeiro, meu amor,
como estás tão mudo hoje!
Só quero uma resposta,
palavra que me foge.
Essa palavra é Sim,
Não, é o seu companheiro;
ambas palavras fecham
em mim o mundo inteiro.
Ribeiro, meu amor,
o teu encanto chama-me!
Não quero dizer mais:
diz, ribeiro: ela ama-me?
7 – IMPACIENCIA
Como eu queria nos troncos talhar!
como eu queria nas rochas gravar!
num fresco canteiro semearia
agrião que em breve o revelaria;
em cada folha estaria a canção:
para sempre teu é o meu coração!
Palavras claras, puras trovaria,
o próprio estorninho as cantaria
com o som cheio da minha canção,
com o impulso ardente do coração
batendo brilhante à tua janela:
meu coração é teu, moleira bela!
Quero soprá-lo aos ventos da estação,
murmurá-lo ao bosque em agitação!
oh! se cintilasse em toda a estrela
e em todo o ar, na aragem mais singela!
somente a nora, ondas, podeis mover?
teu é o meu coração até morrer!
A verdade, em meus olhos podes vê-la?
na minha face ardente, podes vê-la?
na minha boca muda podes ler
o que a respiração te quer dizer;
mas o que eu sofro, ela não quer notar:
que o meu coração lhe estou a entregar!
8 – SAUDAÇÃO MATINAL
Bom dia, bela moleira!
Porque me olhas dessa maneira,
como se estivesses zangada?
È assim tão mau o meu olhar?
Sou perturbante, ao saudar?
Pois volto à minha caminhada.
Só de longe, deixa-me estar
à tua janela, a olhar,
ver de longe as tuas rotinas!
Que ao portão redondo apareça
a pequena e loira cabeça,
azuis estrelas matutinas!
Trémulas flores orvalhadas,
tuas pálpebras ensonadas
não querem receber o sol?
A noite foi tão deleitosa
que as fechas, choras, saudosa
do prazer calmo do lençol?
Sacode já os véus do sonhar,
fresca e livre, ergue o teu olhar
à manhã de Deus em fulgor!
Pelo ar cantam cotovias;
do peito brota em melodias
a dor, a mágoa do amor.
9 – AS FLORES DO MOLEIRO
Crescem flores ao pé do ribeiro,
deste que é amigo do moleiro;
são brilhantes, de cor azulada
tal como os olhos da minha amada,
são, portanto, as minhas flores.
Mesmo em baixo da sua janela
eu hei-de plantar a flor mais bela;
e à hora calma de ir repousar,
ela há-de ouvir-vos, flores, chamar;
sabeis bem o que pretendo.
E ao fechar os olhos, repousando
nas visões de um sono doce e brando,
murmurai-lhe entre sonhos assim:
Nunca, nunca te esqueças de mim!
Apenas isto eu pretendo.
De manhã, quando ela abrir o estore,
olhem para cima com muito amor;
o orvalho no azul do vosso olhar
são lágrimas que estive a chorar
e que hei-de verter nas flores.
10 – CHUVA DE LÁGRIMAS
Sentados juntos, tão felizes,
à sombra que nos refrescava,
olhando juntos, tão felizes,
o rio que murmurava.
A lua também tinha vindo
e com ela o céu estrelado,
e pareciam tão felizes
no seu espelho prateado.
Eu não olhava para a lua
nem para o brilho das estrelas,
olhava apenas a sua imagem
as suas pupilas tão belas.
E via-a inclinada vendo
no rio a imagem mais bela,
e as flores azuis pela margem
inclinavam-se para vê-la.
E afundado no ribeiro
me pareceu ver todo o Céu,
querendo puxar-me com ele
para o seu profundo breu.
E sobre nuvens e estrelas
lá murmurava o ribeiro,
soava cantando e chamando:
Vem e segue-me, companheiro!
Reviraram-se-me os olhos,
turvou-se o reflexo dos céus;
ela disse: Vem aí chuva,
eu vou para casa, adeus.
11 – MINHA!
Rio, deixa de murmurar!
Nora, deixa de bramar!
Todos os pássaros do ar,
grandes ou não, devem deixar
as suas melodias de encantar!
Pelo bosque a atravessar
só uma rima hoje deve soar;
a moleira amada é minha!
Minha!
Primavera, não tens mais flores para dar?
Sol, não tens mais luz para brilhar?
É pois sozinho que tenho que continuar
com a palavra abençoada a cantar,
que a Criação não me entende, não vai ajudar!
12 – PAUSA
Pendurei o alaúde na parede,
prendi-o com uma fita verde.
Não posso cantar, tenho o coração
demasiado cheio para as rimas da canção.
A dor ardente da minha saudade
cantava outrora sem dificuldade
e apesar de cantar com voz serena,
achava que a dor não era pequena.
Ah, tão grande é o fardo da minha sorte
que não há som na Terra que o suporte?
Preso a um prego, descansa um momento!
Se pelas cordas te soprar um vento,
se a asa de alguma abelha te toca,
tremo do medo que o som me provoca!
Porque é que atei o laço tão comprido?
Roça as cordas num suspiro gemido.
Será o eco da minha dor de amor?
Prelúdio das canções que irei compor?
13 – COM O LAÇO VERDE DO ALAÚDE
“Que pena, para o lindo laço verde,
perder-se da cor aqui na parede;
é do verde que eu tanto gosto!”
Tu disseste-me isso hoje, minha amada,
e logo a fita te foi enviada,
toma agora o verde a teu gosto!
Mesmo sendo tão branco o teu Amor,
o verde também terá o seu valor,
e é do verde que eu também gosto.
Porque o nosso amor sempre será verde
e assim a esperança que não se perde,
por isso é ele o nosso gosto.
As tuas tranças já podes atar
com o laço verde, se te agradar,
sim, que o verde é mesmo o teu gosto.
Saberei onde é a esperança em flor,
e saberei onde reina o amor,
e então será o verde o meu gosto.
14 – O CAÇADOR
Que busca o caçador pelo ribeiro deste lado?
Fica na tua coutada, caçador obstinado!
Aqui não há animal selvagem que possas caçar;
só há uma corça mansa para mim, para eu amar.
Se queres ver a meiga corçazinha sem guarda,
pois deixa ficar na floresta a tua espingarda,
e deixa em tua casa qualquer cão que latisse,
e não toques na trompa as melodias de estroinice,
e apara no queixo essa tua barba eriçada,
ou a corça esconder-se-á no jardim, assustada.
Fica antes na floresta, não faças este caminho
e deixa estar em paz o moleiro e o moinho.
Que fariam os peixinhos no verde do pinheiro?
Pois que quer o esquilo no azul pálido do viveiro?
Por isso, fica no mato, teimoso caçador
e deixa-me só com as três noras da minha dor:
e se queres que o meu tesouro te dê atenção,
sabe, meu amigo, o que lhe perturba o coração:
os porcos que vêm para a noite do matagal
revolvem a terra quando invadem o quintal,
e pisam e esgravatam os campos do meu Amor;
atira-te aos porcos, dispara, herói caçador!
15 – CIÚME E ORGULHO
Para onde corres, encrespado e selvagem, rio querido?
Vais cheio de ira e pressa atrás do irmão caçador atrevido?
Dá a volta, dá a volta e humilha primeiro a tua moleira
pela sua alma inconstante, volúvel, fácil e ligeira.
Tu não a viste ontem ao fim da tarde ao portão encostada?
Como ela esticava o pescoço para ver a grande estrada?
Quando após a caça volta a casa o alegre caçador,
então nem se chega à janela uma menina de pudor.
Vai, ribeirinho, e diz-lhe isso, mas ouve, não lhe digas nada,
nem uma só palavra sobre a minha cara amargurada;
diz-lhe: ele fez uma flauta e toca lindas canções e danças,
cortou-a de um junco desta margem para entreter crianças.
16 – A COR AMADA
Eu quero vestir-me inteiro
só do verde de um salgueiro:
como ela gosta do verde!
Quero buscar bosques de cipreste,
campos de alecrim verde silvestre:
como ela gosta do verde!
Alegre caçada, eu parto!
Cruzo campos, corto mato!
Como ela gosta da caça!
A morte é a presa que vou caçar,
ao campo eu chamo dor de amar:
como ela gosta da caça!
Cavem-me a cova num prado,
cubra-me um verde relvado:
como ela gosta do verde!
Nem cruz preta, nem flor colorida,
verde, tudo verde à despedida:
como ela gosta do verde!
17 – A COR MAL AMADA
Queria ir pelo mundo fora,
correr o vasto mundo;
se ele não fosse verde no campo,
verde no bosque profundo!
Queria arrancar as folhas verdes
de cada ramo forte,
e chorar até que as ervas verdes
ficassem brancas de morte.
Ah, verde, que és a cor mal amada,
atrevida e orgulhosa,
porque olhas a este pobre e branco homem?
Porquê, cor maliciosa?
Queria deitar-me à sua porta
à chuva, à neve dos céus,
e cantar baixinho dia e noite
uma só palavra: Adeus!
Soa a trompa de caça no bosque,
oiço-a abrir a janela;
ainda que ela não me olhe a mim,
eu posso espreitá-la a ela.
Tira da cabeça a minha fita
de verde colorida!
Adeus, adeus! E estende-me a mão
ao menos à despedida!
18 – FLORES SECAS
Vós, todas as flores
que ela me ofereceu,
que vos deitem na campa
deste que morreu.
Porque é que me olhais
tão tristes assim,
como se soubesseis
o que vai em mim?
Vós, todas as flores,
pálidas, fanadas?
Vós, todas as flores,
porque estais molhadas?
Lágrimas não fazem
voltar a Primavera,
nem fazem renascer
do amor morto a quimera.
Virá a Primavera,
o Inverno vai partir,
e novas florinhas
na erva vão surgir.
Hão-de nascer na campa
deste que morreu
todas as florinhas
que ela me ofereceu.
E se ela aqui passar,
dirá ao coração:
“ele era leal,
tinha boa intenção!”
Então, todas as flores,
podeis desabrochar!
O Inverno partiu,
Maio está a chegar.
19 – O MOLEIRO E O RIO
O moleiro:
Onde de amor sincero
morrer um coração,
em todos os canteiros
lírios murcharão.
As nuvens para a lua
esconderijo sejam,
para que as suas lágrimas
os humanos não vejam.
Anjos de olhos fechados
soluçam cantando
pelo descanso da alma
que assim vão embalando!
O rio:
E se o amor se escapa
à dor da agonia,
no céu surge uma estrela
nova que alumia.
Três rosas de pétalas
brancas e encarnadas
brotam dos espinhos,
nunca mais definhadas.
E os anjinhos cortam
as suas asas vãs
e descem à terra
todas as manhãs.
O moleiro:
Meu ribeiro amado,
sei que és bom conselheiro;
mas o que o amor faz,
saberás tu, ribeiro?
Ah, no fundo mais fundo,
fresco de repousar!
Ribeirinho querido,
não deixes de cantar.
20 – CANÇÃO DE EMBALAR DO RIO
Dorme bem, dorme bem!
Fecha os olhos, meu bem!
Estás em tua casa,
cansado caminheiro.
Deita-te aqui comigo,
sou teu fiel amigo,
descansa até que o mar
sorva todo o ribeiro.
Fiz-te uma fresca cama
da mais suave lama,
num quarto de cristal
azul cheio de paz.
Quem puder ondular,
quem souber embalar,
venham adormecê-lo,
embalem-me o rapaz!
Quando no verde mato
a trompa soar alto,
vou correr e bramar
mesmo aqui ao teu lado.
Não olheis mais para este,
flores de azul celeste!
Fazeis com que ele tenha
um sonho tão pesado.
Não venhas ao caminho
que vai dar ao moinho,
que a tua sombra, moleira,
vai deixá-lo acordado!
Atira-me essa fita,
rapariga maldita!
Com ela, o seu olhar
eu manterei fechado!
Dorme um sono profundo!
até que acorde o mundo,
dorme sobre essa dor!
Dorme sobre o teu gozo!
A lua cheia ilumina,
dissipa-se a neblina
e o céu, lá nas alturas,
como ele é espaçoso!
.jpg)