terça-feira, 23 de março de 2010


fotografia do zé Hugo
7 – IMPACIENCIA

Como eu queria nos troncos talhar!
como eu queria nas rochas gravar!
num fresco canteiro semearia
agrião que em breve o revelaria;
em cada folha estaria a canção:
para sempre teu é o meu coração!

Palavras claras, puras trovaria,
o próprio estorninho as cantaria
com o som cheio da minha canção,
com o impulso ardente do coração
batendo brilhante à tua janela:
meu coração é teu, moleira bela!

Quero soprá-lo aos ventos da estação,
murmurá-lo ao bosque em agitação!
oh! se cintilasse em toda a estrela
e em todo o ar, na aragem mais singela!
somente a nora, ondas, podeis mover?
teu é o meu coração até morrer!

A verdade, em meus olhos podes vê-la?
na minha face ardente, podes vê-la?
na minha boca muda podes ler
o que a respiração te quer dizer;
mas o que eu sofro, ela não quer notar:
que o meu coração lhe estou a entregar!

6 – CURIOSO

Às flores não pergunto,
nem pergunto às estrelas;
as coisas que me intrigam,
não poderão dizê-las.

Eu não sou jardineiro,
chegar ao céu não pude:
pergunto ao meu ribeiro
se o coração me ilude.

Ribeiro, meu amor,
como estás tão mudo hoje!
Só quero uma resposta,
palavra que me foge.

Essa palavra é Sim,
Não, é o seu companheiro;
ambas palavras fecham
em mim o mundo inteiro.

Ribeiro, meu amor,
o teu encanto chama-me!
Não quero dizer mais:
diz, ribeiro: ela ama-me?

5 – DEPOIS DO TABALHO

Tivesse eu mil braços possantes
para empurrar noras gigantes,
pudesse eu por bosques soprar
e quaisquer pedras arrastar,
para que ela, a bela moleira,
visse a minha alma verdadeira!

Ah! como é tão fraco o meu braço!
o que levanto, o que suporto,
o que desfaço e o que corto,
qualquer puto me leva o passo!

Grande roda, após o trabalho,
na calma do primeiro orvalho;
o patrão está satisfeito
com o trabalho que foi feito;
despede-se a bela moleira,
diz boa noite à roda inteira.

4 – AGRADECIMENTO AO RIO

Estava predestinado,
o teu murmúrio amado?
o teu som, esse teu canto?
Estava predestinado?

Tu chamaste-me, ribeiro:
até à filha do moleiro!
Não foi? Eu entendi bem?
Até à filha do moleiro!

Ela tinha-te enviado?
ou já me tens perturbado?
Gostaria de saber
se ela te tinha enviado.

Seja como for, agora
só sigo por aqui fora.
Encontrei o que buscava,
seja como for, é agora.

O que tenho agora chega:
um moinho que me emprega
as mãos e até o coração.
E como chega e emprega!



3 – ALTO!

Vi um moinho brilhando
por esses álamos fora
e murmurando e cantando
cortava a água uma nora.

És bem-vindo! tão bem-vindo!
doce canto de moinho!
E como a casa é amável
e as janelas como linho!

E como o sol vem brilhando
do céu azul e dourado!
Diz, ó ribeiro querido:
estava predestinado?


2 . PARA ONDE?

Ouvia murmurar um ribeiro
por entre rochedos nascido,
um ribeiro em vales murmura
brilhante em frescura vestido.

Não sei como é que isto acontece,
nem quem me diz para seguir;
com o cajado vou descendo
seguindo o ribeiro a luzir.

Seguindo, cada vez mais longe,
e sempre à beira do ribeiro,
e sempre fresco murmurando,
e sempre mais luz no ribeiro.

Este é, então, o meu caminho?
Ó meu ribeirinho, responde!
Com teu murmúrio enfeitiçaste,
diz-me, ribeirinho, para onde?

Que dizer sobre estes murmúrios?
Só murmúrios não podem ser:
são ninfas do fundo do Rio
cantando em ribeiro a correr.

Deixa cantar e murmurar
e segue, alegre, companheiro!
segue viandando, que há noras
a girar em cada ribeiro.

1 – ANDAR

Andar é o gosto do moleiro!
Um moleiro, para prestar,
tem que ter o prazer de andar,
andar!

Isso aprende-se com a água!
que dia e noite não descansa,
nem pára pensando na andança,
a água!

Também se vê isso nas noras!
que não gostam de estar paradas
e animam as horas cansadas,
as noras!

As próprias pedras pesadas!
fazem mó e dançam com o Rio,
devagar mas cheias de brio,
as pedras!

Ó andar, andar, ó meu prazer!
O senhor e a senhora deixam,
deixam-me em paz, nunca se queixam
do meu andar e andar e andar!...

segunda-feira, 22 de março de 2010

Votos de Primavera




Fotografia de Hugo José




Aqui começa outro blogue, para dar conta do meu novo trabalho de tradução. Continuo com os cíclos de canções de Schubert, desta vez Die Schöne Müllerin, A Bela Moleria, sobre poemas de Wilhelm Müller. Proponho-me fazer a tradução do ciclo completo até ao final da Primavera, o que me dá uma média de duas canções por semana. Vamos a isto!